Quem cresceu pelas fazendas do Pantanal ou passou as férias de infância acampando nas margens do Rio Paraguai certamente guarda na memória o cheiro de café passado na hora, o estalar da lenha na fogueira e os causos contados pelos mais velhos ao cair da noite.
Entre um conto e outro, um personagem de uma perna só, gorro vermelho e cachimbo na boca sempre roubava a cena: o Saci-Pererê.
Nas terras de Cáceres, a lenda do Saci se funde perfeitamente com a vida ribeirinha e pantaneira.
Longe de ser uma figura maligna, o “danadinho” é visto por moradores e pescadores como a explicação perfeita e cheia de humor para os barulhos estranhos, sumiços de objetos e pequenas confusões que acontecem nas comitivas, nos currais e nos barrancos dos rios.
O Saci nas Fazendas: Tranças nas Crinas e Redemoinhos na Poeira
Se você acordar bem cedinho em uma fazenda cacerense e encontrar a crina do seu cavalo favorita cheia de nós apertados e tranças perfeitas, não tente desatar na pressa.
Os peões mais antigos garantem: esse é o carimbo oficial do Saci.
Segundo a tradição local, o Saci age como um guardião invisível que vaga pelas margens das baías, pelos capões e pelos currais.
Durante a madrugada, quando todos dormem, ele gosta de apostar corrida montado nos cavalos da propriedade, deixando as tranças na crina como lembrança da sua travessura.
E sabe aqueles pequenos redemoinhos de vento que surgem do nada nas estradas de terra, levantando poeira e folhas secas em um rodopio perfeito?
No Pantanal, ninguém tem dúvida: é o próprio Saci se deslocando em alta velocidade de uma fazenda para a outra!
Quem nunca ouviu um assobio misterioso na beira do rio?
Pescarias Atrapalhadas e Assobios na Madrugada

É na beira do Rio Paraguai e nas baías mais isoladas de Cáceres que o Saci gosta de testar a paciência dos pescadores.
Quem navega ou acampa sozinho por essas bandas já deve ter passado por alguma destas situações:
O Mistério do Assobio: De repente, no silêncio da noite, surge um assobio agudo, longo e estridente vindo do meio do mato.
Você olha para um lado, o som vem do outro.
O Saci adora assobiar à distância para fazer o pescador olhar para trás e perder o peixe fisgado.
A Linha Enredada e o Fogo Apagado: A linha de pesca dá um nó impossível sem explicação, o anzol enrosca no fundo, a isca fresca some do balde e o fogo do acampamento apaga de repente?
Pode ter certeza de que o menino de uma perna só está por perto dando risada.
Nós nos Juncos: Nas margens das baías, ele gosta de trançar os juncos e a vegetação aquática, criando pequenas armadilhas para fazer o pescador desatento tropeçar ao desembarcar.
A “Magia de Desmantelo”: Se um vaqueiro ou pescador perde o rumo do porto de volta para a sede da fazenda perto da meia-noite caminhando em círculos em um lugar que conhece como a palma da mão, os antigos atribuem o desorientamento ao feitiço brincalhão do Saci.
Causo de Pescador: Como Acalmar o “Danadinho”
Ficou nervoso porque a fisgada falhou ou a isca sumiu?
A sabedoria popular pantaneira ensina o segredo: não adianta se irritar! O Saci se diverte com a bravura dos outros.
O melhor remédio é fingir que não ouviu os assobios. E se ele estiver insistindo muito na traquinagem, a tradição ensina a deixar um pedacinho de fumo de rolo ou um golinho de cachaça no pé de uma árvore.
O garoto aceita o presente, dá uma risada e vai aprontar em outro lugar, deixando sua pescaria em paz!
Resgatando a Magia e Encantando as Famílias
Relembrar as histórias do Saci é resgatar a essência da infância rural e a poesia do cotidiano pantaneiro.
Para as famílias que visitam Cáceres, apresentar essas lendas às crianças transforma uma simples viagem em uma verdadeira caça aos mistérios da natureza.
Da próxima vez que estiver em Cáceres, preste atenção aos detalhes: ao ver um redemoinho na estrada ou ouvir um assobio fino no vento das baías, sorria!
